Como entender a cromatografia de um óleo vegetal

Olá! Nesse texto vamos te mostrar qual é a composição química básica de um óleo ou de uma manteiga vegetal. Veremos também como é feita a análise de cromatografia, que atesta a pureza desses produtos, e o que precisamos procurar quando nos deparamos com um cromatograma.


Composição do óleo vegetal


Óleos e manteigas vegetais possuem a composição molecular muito parecida, e são formados por substâncias de duas naturezas: Glicerídeos e não glicerídeos1.


a) Glicerídeos: são a matéria gordurosa em si. Formados por uma molécula de glicerol ligada a até três moléculas de ácidos graxos. Os ácidos graxos são grandes cadeias carbônicas com uma terminação em ácido carboxílico.

Uma molécula de glicerol ligada a até três moléculas de ácidos graxos forma um triglicerídeo.
Imagem:https://commons.wikimedia.org/wiki/File:220_Triglycerides-01.jpg

b) Não glicerídeos: Os não glicerídeos são responsáveis por certas características dos óleos vegetais, como a ação pró ou antioxidante, odor ou sabor específicos, cores fortes. Alguns exemplos são lecitinas, ceras, clorofila, vitamina D e outros esteroides, carotenoides (como o betacaroteno, precursor da vitamina A), vitamina E, vitamina K2. Quanto menos processados os óleos vegetais, maior a proporção de não glicerídeos. Óleos mais brutos, prensados a frio, possuem até 5%, enquanto os refinados, menos de 2%1.

O óleo vegetal de urucum é bem avermelhado, característica dada por suas altas taxas de betacaroteno, um componente não glicerídeo.
Imagem:https://br.pinterest.com/pin/737816351428914775/?lp=true

Tanto os glicerídeos quanto os não glicerídeos podem ser usados como marcadores químicos e atestar a procedência e a qualidade dos óleos vegetais. Um marcador é uma espécie química (uma molécula específica) já conhecido na literatura especializada, presente naquele óleo vegetal (ou em qualquer amostra) sempre em uma certa proporção. Então após comparar os valores obtidos na nossa análise com os valores de referência da literatura, podemos atestar que o produto analisado é realmente aquele escrito no rótulo. Isso vale para os óleos vegetais, os óleos essenciais e uma série de outros produtos.

 

Como atestar a qualidade dos óleos vegetais – Análise Cromatográfica

Para atestar a pureza de um óleo vegetal, se faz algum tipo de teste, ou análise. Existem alguns testes possíveis, nós normalmente enviamos nossas amostras de óleos vegetal para que um laboratório certificado faça a Cromatografia Gasosa (CG). Com o resultado desse teste, observa-se alguns dos compostos presentes (especialmente esses que foram definidos como marcadores), comparando-os com valores conhecidos já definidos e conhecidos para aquela espécie. Se observarmos em ambos os mesmos compostos e em porcentagens similares, bingo! Teremos certeza de que a amostra é do óleo vegetal que acreditamos ser. Isso é bem importante, principalmente quando se trata de óleos mais caros, que frequentemente são adulterados.

A cromatografia é um processo de separação e identificação de componentes de uma mistura. Um bom exemplo para compreender o seu mecanismo, é a cromatografia de tintas de canetas, com o objetivo de descobrir a composição de cores usada para a obtenção da tinta especifica da caneta. Esse é um experimento clássico das aulas de ciências, e muito explicativo.

Aqui nossa substância analisada é a tinta da caneta presente naquele pontinho na primeira parte da foto abaixo. Temos como fase estacionária o papel filtro, e como fase móvel o álcool no fundo do copo, que será absorvido e subirá lentamente pelo filtro. O álcool irá solubilizar os componentes da tinta da caneta, carregá-los e separá-los de acordo com a interação que cada um sofre, tanto do álcool quanto do papel. A corrida do álcool através do papel, que gera a interação entre os componentes, é chamada eluição. E assim conseguimos ver as várias cores que formam a cor específica da caneta.

Processo de eluição de cromatografia simples de tinta de caneta em papel filtro
Imagem: https://fphoto.photoshelter.com/gallery/Paper-Chromatography-Sequence/G0000Y3Fu6OerLdk/

Vários fatores são responsáveis por essa separação, como a solubilidade de cada composto, tamanho da molécula e a massa de cada uma. O resultado é que cada composto químico, cada molécula, é separado das demais. Conseguimos perceber quantas espécies estão presentes e ter uma ideia da proporção em que cada um se encontra, pelo tamanho do borrão que forma. Você consegue perceber quantas espécies (cores) foram usadas para fazer essa tinta azul-marinho? Comenta aqui embaixo 😉

A cromatografia gasosa (CG), que normalmente é usada para a análise dos óleos vegetais, funciona com o mesmo princípio mas, claro, de uma forma mais arrojada. O papel filtro é substituído por uma coluna capilar, que é como um tubo super fino e com vários metros de extensão, recoberto na parte interna por uma camada da fase estacionária, que muitas vezes é feita de sílica. A fase móvel, ao invés do álcool, é um gás, e pode ser hélio (He), argônio (Ar), hidrogênio (H2), entre outros.

Cada amostra é preparada de uma certa forma para facilitar a realização do teste, algumas precisam ser diluídas em um solvente, outras precisam ter suas moléculas “quebradas” com um ácido forte, entre outros. Então a amostra é injetada no aparelho e carregada pelo gás através da coluna capilar. A eluição acontece, gerando um diagrama – com a mesma lógica dos borrões do experimento feito no papel. Os resultados da cromatografia são detectados e vão para a etapa da análise de dados, que compara o que se obteve com dados de uma vasta biblioteca. Então consegue-se definir, por comparação, quais são os componentes presentes na amostra analisada e a proporção em que eles se encontram.

Esquema de funcionamento de um cromatógrafo a gás com espectrômetro de massas.
Imagem: Harmonie Aromaterapia

Cada componente do óleo vegetal (ou de qualquer amostra analisada) irá aparecer como um pico nesse diagrama, também chamado de cromatograma. Quanto maior o pico maior a concentração do componente na amostra. E com a ajuda das bibliotecas ou banco de dados, consegue-se descobrir a qual componente corresponde cada pico.

Veja o exemplo do cromatograma obtido a partir da análise do óleo vegetal de urucum da Harmonie.



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Cromatograma do óleo vegetal de urucum
Imagem: Harmonie Aromaterapia

Então recapitulando: Cada um dos picos observados corresponde a um componente químico da amostra, que foi preparada de uma maneira específica, e é resultado de um certo tempo de eluição, a partir do teste específico da cromatografia a gás, com um certo tipo de coluna cromatográfica, usando um determinado gás. Então a biblioteca de componentes nos mostra, por comparação de todas essas especificações, quais componentes formam a amostra que estamos analisando.

Formas de detectar vitaminas

Perceba que nesse cromatograma apenas os ácidos graxos foram detectados.

As vitaminas e outros componentes não glicerídeos podem ser detectados de várias formas, mas não na mesma análise dos glicerídeos. A preparação das amostras pra detectar os glicerídeos acaba afetando a análise dos não glicerídeos, então é preciso que sejam feitas análises distintas.

A forma mais básica de análise dos não glicerídeos é com os chamados ‘testes de bancada’: adiciona-se reagentes específicos para promover determinada reação e dependendo da cor resultante atesta-se que há ou não determinado componente no óleo. Porém apesar de simples, esses testes são muito suscetíveis a erros e contaminações.

Existem outros equipamentos de análise, como o HPLC (CLAE – cromatografia líquida de alta eficiência). Mas as análises feitas por ele, por serem bem refinadas, são muito caras. Isso inviabiliza o processo, já que é necessária ao menos uma análise em cada lote de óleos vegetais.

Os componentes não glicerídeos também podem ser detectados por cromatografia gasosa, assim como os componentes glicerídeos do óleo vegetal. Porém sua natureza é diversa: além de diferente das moléculas dos glicerídeos, cada um dos componentes é diverso, com vários tamanhos de moléculas e diferentes funções químicas. São necessários outros parâmetros e preparações de amostras particulares, num processo mais delicado e exaustivo, que dificulta e encarece a análise3. É necessário um estudo mais aprofundado e investigativo, quase como se tivéssemos que fazer uma análise específica para cada um dos componentes que se espera encontrar4,5.

Por esse motivo normalmente se utilizam referências bibliográficas para afirmar quais são os componentes não glicerídeos dos óleos vegetais. Por mais que haja alguma variação de proporção dos compostos em relação ao cultivo da planta usada, ainda é uma forma bem segura.

Então se o óleo vegetal passou por um teste cromatográfico, e seus marcadores indicaram que realmente se trata do óleo vegetal puro, e se temos comprovação de que esse óleo foi extraído de forma saudável daquela determinada espécie vegetal, podemos fazer inferências. Saberemos que esse óleo vegetal – que foi extraído a frio, que tem seus compostos preservados por uma embalagem de vidro escuro e que foi bem armazenado – com certeza contém níveis satisfatórios de vitaminas e outros compostos benéficos característicos daquela espécie.

É um tanto complexo, mas entender essas particularidades por trás dos produtos que usamos nos torna mais independentes. Podemos usar nosso próprio conhecimento para julgar se uma matéria-prima nos será saudável. Nos empoderamos nesse processo da busca pela qualidade de vida.

Referências:

1) REDA, S. Y.; CARNEIRO, P. I. B. Óleos e gorduras: aplicações e implicações. Revista Analytica. Fevereiro/Março 2007, 27:60-67

2) PAIXÃO, José A. da; STAMFORD, Tânia, L. M. Vitaminas lipossolúveis em alimentos : uma abordagem analítica. Quím. Nova [online]. 2004, vol.27, n.1, pp.96-105. ISSN 0100-4042.

3) FREITAS, L. dos S. Desenvolvimento de procedimentos de extração do óleo de semente de uva e caracterização química dos compostos extraídos. Instituto de química, UFRGS. Tese de doutorado. Porto Alegre, 2007.

4) GUINAZ, M. et al. Tocoferois e tocotrienois em óleos vegetais e ovos. Quím. Nova vol.32 no.8 São Paulo 2009.

5) PENTEADO, M.V.C. Vitaminas: Aspectos nutricionais, bioquímicos, clínicos e analíticos. São Paulo: Manole, 2003. 612p.



Texto original por Cristiane Corrêa, março de 2019




8 comentários em “Como entender a cromatografia de um óleo vegetal

    1. Oi, Cíntia.
      Fazemos sim. Na página de cada óleo essencial, aqui da loja virtual, tem a cromatografia do lote vigente.

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